Foto: Talis Mauricio/CBN
Terrazza Panorâmico

Os dois rios, no entanto, continuam mortos no trecho urbano de São Paulo. Uma recente e ousada promessa do governador João Doria, de em até dez anos despoluir os dois rios, reacendeu mais uma vez o sonho dos paulistanos. Mas qual o limite entre o possível e o desejável? Acompanhe o primeiro de cinco capítulos da série ‘Às margens de um sonho’.

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Sonho…

“Um rio limpo, que desse pra pescar… Com peixe, com vida… Um ponto turístico e um lugar de encontro dos cidadãos, de lazer… Limpo, usado como meio de transporte… Que não tivesse esse cheiro que incomoda muito… Frequentar as margens… O que eu esperaria seria um rio limpo no qual a gente pudesse inclusive nadar, né, mas isso é sonho utópico”. A sensação é a de diversos paulistanos ouvidos pela reportagem da CBN. 

Realidade…

“O rio é sujo, fedido, incomoda… Poluído, feio, morto… O mau cheiro vem mais quando está calor… Você sabe que chegou em São Paulo quando você começa a sentir esse cheiro… Você não vê água correndo, a água fica parada, é um grande esgoto… É uma coisa podre… Infelizmente eu tenho vergonha”. Mais sensações de paulistanos.

Vergonhoso. E é difícil encontrar um paulistano otimista com mais uma promessa de despoluição dos rios Pinheiros e Tietê.

“O nosso compromisso de governo é até dezembro de 2022 entregar o rio Pinheiros limpo, na mesma condição que nós temos no Tâmisa, em Londres, e no rio Sena, em Paris. O Tietê leva mais tempo, é uma ação que vai levar de oito a dez anos”, afirmou o governador de São Paulo, João Doria.

O projeto atual é coordenado pela Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente. O principal desafio está nas mãos da Sabesp, que com o auxílio da iniciativa privada terá até dezembro de 2022 para despoluir os 25 afluentes que desaguam no rio Pinheiros. Tarefa que o presidente da companhia, Benedito Braga, avalia como tecnicamente possível. Mas, se vai dar certo, por que não foi feito antes?

“Olha, essa é uma boa pergunta, que eu também faço. O importante é que estamos fazendo agora”, declarou.

Fato é que a promessa reacendeu o sonho dos paulistanos. Nadar, pescar, navegar, desfrutar das margens, abastecimento… O governo descarta quase todas essas possibilidades, mas confirma que o uso para transporte de passageiros e turismo é viável.

A Emae, Empresa Metropolitana de Águas e Energia do Estado, estuda a possibilidade de navegação no Tietê entre as barragens da Penha, na Zona Leste, e de Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo. No Pinheiros, o eixo que vai do Cebolão até a represa Billings.

Horácio Figueira, especialista em Engenharia de Transporte de Pessoas, considera pouco provável transportar passageiros no Tietê. Já no Pinheiros, avalia que é possível com a criação de barcos expressos conectados a estações da CPTM.

“Você conectaria essas estações hidroviárias com as estações ferroviárias da linha 9 Esmeralda da CPTM. Tipo assim, você traz os passageiros lá da Zona Sul, com veículos de grande capacidade, e vai alimentando o trem em algumas estações, com um transporte expresso. No caso do Tietê, jogar a pessoa em cima da ponte pra ela sair a pé, andando, não tem segurança. Vai ter que fazer estações mesmo, protegidas de intempéries, com conforto. Senão você não vai atrair ninguém”, avalia Horácio Figueira. 

A Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, por meio do grupo de pesquisa Metrópole Fluvial, elaborou para o governo, em 2011, o projeto do hidroanel metropolitano. A medida prevê uma rede de hidrovias urbanas interligada pelos rios Tietê e Pinheiros e as represas Billings e Guarapiranga, num total de 170 quilômetros.

O coordenador do grupo, Alexandre Delijaicov, também avalia como possível o uso da margem dos rios para a implantação de parques fluviais, como ocorre na França e na Alemanha. Daria para fazer, por exemplo, no Parque Villa-Lobos ou no Joquey Clube.

“Então, por exemplo, no Jockey Club, passando por cima das marginais, depois da pista de corrida de cavalo, você põe por cima das marginais uma praia fluvial urbana, com solário para 20 mil pessoas, vários tanques de piscinas, ali na beira do canal. A grande virtude das cidades é construir esquinas de encontro, convivência e confiança das diferenças”. 

O governo promete ainda os rios Pinheiros e Tietê sem cheiro ruim e com as margens restauradas pela vegetação. Na Usina de Traição, que vai se chamar Estação São Paulo, empresas privadas poderão explorar o prédio com restaurantes, cafés, atividades culturais e um mirante.

Embora defendido por ambientalistas, arquitetos e urbanistas, as marginais não sofrerão alterações. Ou seja, não será dessa vez que os dois rios terão suas várzeas de volta. Nadar, pescar, praticar atividades esportivas e beber a água, o paulistano pode esquecer. Malu Ribeiro, da SOS Mata Atlântica, explica que isso levaria anos, só seria possível com replanejamento urbano e sem a nossa presença por aqui.

“Tem que ter uma expectativa de ter um ambiente saudável, um ambiente que lhe traga bem-estar. O que é rio para nós ambientalistas é uma água viva, com peixes, com sustentabilidade para sua comunidade. E isso esses dois grandes rios na área urbana, infelizmente, não vão voltar a ser. Como não são os rios de Nova York, nem de Londres, Paris ou da Coréia do Sul”, avalia a ambientalista.

Desde 1992, somando os investimentos do projeto Tietê e, agora, os recursos previstos para o Pinheiros, são ao menos 13 bilhões de reais alocados em programas de despoluição dos dois rios. Só no atual projeto de despoluição do Pinheiros o investimento previsto pelo governo é de 1 bilhão e meio de reais.

POR TALIS MAURÍCIO