Eu nunca terminei de assistir um vídeo de hipnose do Youtube.

É melhor que eu confesse isso agora. Eles funcionam bem demais: sou muito sugestionável. Caí no sono várias vezes enquanto escrevia essa matéria.

Meu interesse em vídeos de hipnose surgiu durante um longo verão de insônia em Londres. O Zoplicano que haviam me receitado não estava funcionando: ele só me fazia escrever besteiras no Facebook ou comer todo o conteúdo da minha geladeira. Eu ficava acordada por horas ouvindo as sirenes e táxis e pessoas bêbadas na rua, me perguntando como eu iria me arrastar para o trabalho na hora certa no dia seguinte.

No final a única coisa que funcionou foram os vídeos da Jody Whiteley, uma prolífica hipnotizadora digital cujos 329 vídeos, muitos deles com duas ou três horas de duração, já atraíram 78.112 de assinantes e 18 milhões de visualizações no YouTube.

Compostos principalmente de afirmações recitadas em uma voz calma e robótica, os vídeos da Whiteley começam com a instrução para achar um lugar calmo e confortável (e de preferência que não envolva operar máquinas pesadas). Ela te informa que você pode sair do transe, se necessário, com uma profunda inspiração de ar. Depois ela te manda ouvir “o som da minha voz”, várias e várias vezes, e você começa a respirar fundo, seus membros começam a amolecer, um por um, suas pálpebras ficam pesadas, aí vem a contagem regressiva para o estado hipnótico… É por volta dessa parte que eu caio no sono.

Para dar uma olhada nesses vídeos para escrever isso, tenho que pausá-los e me entupir de café; tal é o poder da voz monotônica de Whiteley. É uma voz diferente de qualquer coisa que eu já tenha visto no Youtube, um mercado de disputa de atenções no qual personagens cada vez mais bombásticos competem. Whiteley vai no sentido contrário da moda ao tentar, de fato, fazer seus ouvintes dormirem. Ela posta vídeos com narrativas de sonhos lúcidos, visualizações e vídeos com sons da natureza e músicas para a concentração, reconhecíveis pelos seus gráficos New Age e mal-feitos. Os comentários contêm as palavras “obrigado” e “ajudando” repetidas e repetidas vezes.

Whiteley está entre os hipnotizadores mais famosos do Youtube, junto com um canal chamado UltraHypnosis, que oferece uma seleção de vozes masculinas e femininas. Mas apesar dos vídeos mais populares de Whiteley seguirem um molde de indução ao sono e auto-ajuda, a UltraHypnosis abarca uma gama mais diversa de usos e experiências. Seus vídeos incluem coisas como “Transformação Vampiresca”, “Vire um Bebê”, e sua opção mais popular, “Não Consigo Parar de Rir”.

Enquanto os vídeos da Whiteley são quase maternais e desprovidos de qualquer conteúdo sexual, o UltraHypnosis parece fazer parte de uma subcultura, uma localizada entre o AS MR e as “drogas digitais” que estão preocupando o governo da Arábia Saudita.

Adentre à comunidade de hipnose da internet e você encontrará vídeos com títulos chamativos prometendo te deixar doidão, regredir à uma vida passada, curar vícios, esquecer seu próprio nome, e até mesmo mudar a cor dos seus olhos. Os vídeos afirmam sem parar que são tão poderosos que já foram “banidos”, apesar de nunca deixarem claro de onde.

Eu dou uma olhada nas ofertas mais sensacionalistas: um vídeo afirma induzir “leves alucinações“, mas termina sendo apenas um som metálico com ilusões de ótica que fazem o quarto pulsar por um minuto quando você tira os olhos da tela. Esse vídeo não me convence que estou bêbada. E esse aqui falha completamente em me convencer de que meu nome é Marlon.PUBLICIDADE

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