(Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Intitulado de “as mensagens secretas da Lava Jato”, o site The Intercept Brasil publicou três matérias com transcrições de mensagens que teriam sido trocadas entre o ex-juiz da Justiça Federal e atual ministro da Justiça, Sérgio Moro, e o procurador coordenador da força-tarefa Lava Jato, Deltan Dallagnol.

Segundo o “Intercept”, Moro orientou ações e cobrou novas operações dos procuradores, além de sugerir a inversão de fases de algumas operações da Lava Jato.

No que os jornalistas responsáveis pelas matérias apontam, o material foi produzido a partir de arquivos inéditos, incluindo mensagens privadas, gravações em áudio, vídeos, fotos, documentos judiciais e outros itens, enviados por uma fonte anônima.

O site também afirma que recebeu todos os materiais antes da notícia de uma suposta invasão do celular do ministro Sérgio Moro, divulgada na semana passada, em que ele também afirmou que não houve captação de conteúdo.

Segundo o material publicado na noite deste domingo (9), as mensagens trocadas em grupos da força-tarefa e mensagens privadas, estavam registradas no aplicativo Telegram, similar ao popular WhatsApp.

Na primeira parte do material, o site The Intercept Brasil fala da tentativa dos procuradores da força-tarefa em Curitiba de impedir uma entrevista do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à jornalista Mônica Bergamo, do jornal Folha de São Paulo, autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, em 28 de setembro de 2018.

Nas mensagens, Deltan Dallagnol e outros procuradores demonstram preocupação de que a entrevista pudesse levar a uma vitória do então candidato do PT à presidência, Fernando Haddad.

Na ocasião, a entrevista não aconteceu.

Na segunda matéria, o site revela uma preocupação de Deltan Dallagnol com a denúncia contra o ex-presidente no caso envolvendo o tríplex do Guarujá, em São Paulo, que, inclusive, resultou na prisão de Lula no dia 07 de abril de 2018.

No dia 9 de setembro de 2016, Dallagnol teria enviado uma mensagem para um grupo de mensagens dos procuradores da Lava-Jato:

“Falarão que estamos acusando com base em notícia de jornal e indícios frágeis… então é um item que é bom que esteja bem amarrado. Fora esse item, até agora tenho receio da ligação entre Petrobras e o enriquecimento, e depois que me falaram tô com receio da história do apto… São pontos em que temos que ter as respostas ajustadas e na ponta da língua”.

O documento foi anunciado ao público em uma coletiva de Deltan Dallagnol em um material feito em PowerPoint, que repercutiu negativamente em várias redes sociais, pelo formato desenhado.

Dois dias após a denúncia apresentada e com a repercussão negativa das acusações, Dallagnol enviou uma mensagem para Sérgio Moro, dizendo que “a denúncia é baseada em muita prova indireta de autoria, mas não caberia dizer isso na denúncia e na comunicação evitamos esse ponto”.

Dias depois, Moro respondeu: “Definitivamente, as críticas à exposição de vocês são desproporcionais. Siga firme”.

A última das três matérias diz que Moro sugeriu ao procurador que trocasse a ordem de fases da Lava Jato, cobrou agilidade em novas operações, deu conselhos estratégicos e pistas informais de investigação, antecipou ao menos uma decisão, criticou e sugeriu recursos ao Ministério Público e deu broncas em Dallagnol.

Segundo as mensagens reveladas pelo site, em 21 de fevereiro de 2016, Moro se intrometeu no planejamento do Ministério Público de forma explícita:

“Olá Diante dos últimos. Desdobramentos talvez fosse o caso de inverter a ordem das duas planejadas”, afirmou Moro, numa provável menção às fases seguintes da Lava Jato. Dallagnol disse que haveria problemas logísticos para acatar a sugestão. No dia seguinte, ocorreu a 23ª fase da Lava Jato, a Operação Acarajé.

As mensagens também relevam a sugestão de Moro para que uma das procuradoras da Lava Jato seja treinada para participar de audiências.

“Prezado, a colega Laura Tessler de vcs é excelente profissional, mas para inquirição em audiência, ela não vai muito bem. Desculpe dizer isso, mas com discrição, tente dar uns conselhos a ela, para o próprio bem dela. Um treinamento faria bem. Favor manter reservada essa mensagem”, escreveu Moro.

De acordo com as matérias, as conversas entre Moro e Dallagnol enviadas pela fonte anônima compreendem um período de dois anos entre 2015 e 2017. Já no grupo de mensagens dos procuradores, o conteúdo dos chats totaliza o equivalente a um livro de 1.700 páginas.

O posicionamento da defesa do ex-presidente Lula você pode ter acesso neste link.

O posicionamento do ministro Sérgio Moro e do Ministério Público Federal podem ser acessados neste link.

Repórter William Bittar